No pé, a maçã parece pronta para a categoria extra. Antes que apareçam alterações na superfície dos frutos, as altas temperaturas já podem estar interferindo em processos fisiológicos importantes para o desenvolvimento da macieira.
A fotossíntese, as trocas gasosas e o equilíbrio hídrico da planta estão entre os processos que podem ser afetados pelas condições de estresse térmico. Dependendo da intensidade e da duração da exposição, essas alterações podem trazer consequências para o desenvolvimento e a qualidade dos frutos.
O tema ganha peso com o momento do setor. Depois de anos de quebra associada a invernos com picos de calor, a maçã brasileira voltou a crescer e alcançou uma colheita de 1,6 milhão de toneladas, volume que é quase o dobro do registrado nas duas temporadas anteriores, que registraram cerca de 850 mil toneladas, e supera o recorde de 2017, de 1,3 milhão de toneladas, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM). Com mais produtores disputando o mercado interno e o externo, cada ponto de qualidade pesa mais na negociação.
Para a indústria de insumos, o estresse térmico é uma lacuna de portfólio. As soluções disponíveis protegem, mas cobram caro seja em custo, mão de obra ou qualidade do fruto. Ao mesmo tempo, esse cenário também representa uma oportunidade: desenvolver tecnologias que contribuam para o manejo de condições ambientais adversas, complementando as estratégias já utilizadas nos pomares.
O que é estresse térmico em maçã?
O estresse térmico ocorre quando a exposição a temperaturas elevadas compromete ou modifica processos fisiológicos da planta, podendo ultrapassar sua capacidade de adaptação às condições ambientais.
Na macieira, o problema não se limita à superfície dos frutos. As folhas, responsáveis por grande parte da atividade fotossintética, também podem apresentar alterações funcionais em condições de calor excessivo.
É importante diferenciar estresse térmico de queimadura solar. Enquanto o primeiro envolve as respostas fisiológicas da planta às temperaturas elevadas, a segunda corresponde a danos localizados, principalmente nos frutos, associados à exposição solar e, dependendo do tipo de lesão, às altas temperaturas.
O ponto crítico é que o fruto aquece muito mais que o ar. A temperatura da superfície pode ficar de 10 °C a 15 °C acima da temperatura ambiente, porque o fruto não dissipa calor como a folha. Com o ar acima de 32 °C, o risco já é considerado alto. Os fatores que agravam o quadro de estresse podem ser cultivar sensível, pouco vento, baixa umidade e exposição repentina do fruto após poda ou raleio.
Como o calor excessivo interfere na fotossíntese e no desenvolvimento dos frutos?
A fotossíntese é um dos principais processos responsáveis pela produção de compostos orgânicos utilizados no crescimento e no desenvolvimento das plantas.
Para que esse processo aconteça de maneira eficiente, a macieira depende de condições ambientais compatíveis com sua atividade fisiológica.
Quando a temperatura se eleva excessivamente, diferentes mecanismos podem ser afetados.
1. Alterações nas trocas gasosas
Em condições de elevado calor e demanda evaporativa, a planta pode reduzir a abertura dos estômatos como parte de sua resposta à perda de água.
Embora esse mecanismo contribua para a regulação hídrica, também pode limitar a entrada de dióxido de carbono (CO₂), necessário à fotossíntese.
2. Mudanças na eficiência fotossintética
Temperaturas elevadas podem interferir na atividade de enzimas envolvidas na fixação de carbono e no funcionamento dos sistemas responsáveis pelas reações fotoquímicas.
Estudos conduzidos com macieiras ‘Red Gala’ demonstraram alterações na eficiência do fotossistema II e nas respostas fotossintéticas durante eventos prolongados de calor.
Entretanto, essas respostas não são uniformes: a planta também apresenta mecanismos de aclimatação, e os efeitos dependem das temperaturas atingidas e da duração do estresse.
3. Consequências para o desenvolvimento dos frutos
A disponibilidade de fotoassimilados e o equilíbrio hídrico estão diretamente relacionados ao desenvolvimento das maçãs.
Quando condições ambientais adversas afetam esses processos, podem surgir impactos no crescimento e em atributos de qualidade dos frutos.
Alterações na coloração dos frutos
A coloração é um dos atributos utilizados na avaliação da qualidade comercial das maçãs.
Em cultivares vermelhas e bicolores, a formação de pigmentos como as antocianinas depende de fatores genéticos e ambientais, incluindo temperatura e disponibilidade de luz.
Temperaturas elevadas podem prejudicar o desenvolvimento da coloração vermelha em determinadas condições. Por outro lado, o excesso de exposição solar também aumenta o risco de lesões na superfície do fruto.
Isso cria um desafio para o manejo: proporcionar luminosidade adequada para o desenvolvimento da cor sem aumentar desnecessariamente a exposição dos frutos a condições prejudiciais.Danos causados pela exposição solar
A queimadura solar é uma das manifestações possíveis da exposição excessiva dos frutos à radiação e ao calor.
A literatura descreve três tipos principais de lesão:
- Queimadura foto-oxidativa: associada à exposição repentina à luz intensa de tecidos anteriormente sombreados, podendo gerar manchas esbranquiçadas.
- Escurecimento por queimadura solar: caracterizado por manchas amareladas, marrons ou bronzeadas na superfície do fruto, geralmente associado à combinação de radiação e temperaturas elevadas.
- Necrose por queimadura solar: dano mais severo, com morte de tecidos em decorrência de temperaturas extremas.
Essas manifestações possuem mecanismos e condições de ocorrência distintos. Não devem ser interpretadas como etapas obrigatórias de uma mesma evolução.
A queimadura solar, portanto, é um problema relevante na pomicultura, mas não representa a totalidade dos efeitos que podem estar associados ao estresse térmico.
O prejuízo tem duas faces: cor e peso
O estresse térmico costuma ser tratado como defeito estético. Na conta do pomar e do packing, ela pesa em duas linhas diferentes.
- Cor. Os possíveis danos visuais nos frutos oriundos deste estresse como manchas na face externa dos frutos tiraria os mesmos da categoria de maior valor. Em Vacaria (RS), um estudo de três safras com ‘Royal Gala’ registrou 5,56% de frutos com queimadura de sol em plantas sem tela (Amarante et al., Pesquisa Agropecuária Brasileira, 2007). No estado de Washington (EUA), maior produtor norte-americano, as perdas podem passar de 10%, e a incidência relatada na literatura internacional vai de 5% a 50% dos frutos, conforme cultivar e local (Willsea et al., 2023).
- Peso. A manutenção da água nos tecidos é importante para preservar características físicas dos frutos. Em condições experimentais de estresse térmico, alterações na perda de massa fresca podem ser utilizadas como indicadores da resposta dos frutos aos tratamentos avaliados. Entretanto, é necessário diferenciar a perda de massa observada em ensaios da redução efetiva de peso comercializado em condições de campo. Essas variáveis estão relacionadas, mas um resultado experimental não representa automaticamente um ganho comercial na colheita.
Quando aparecem juntas, as duas perdas se somam no mesmo lote: menos fruta na categoria extra e menos quilos no total. O dano começa no pomar, mas o custo se consolida na classificação e na balança, quando toda a despesa de produção já foi feita.
Como o setor previne o estresse térmico em maçã hoje
As ferramentas atuais funcionam, mas cada uma transfere o custo para outro ponto da cadeia:
| Estratégia | O que entrega | Limitação |
|---|---|---|
| Tela antigranizo | Protege contra granizo e, em ‘Royal Gala’, reduziu a queimadura de 5,56% para 2,89% (tela branca) e 1,56% (tela preta) | Alto custo de implantação. No mesmo estudo, a tela preta, que cortou cerca de 25% da radiação, também reduziu a cor vermelha dos frutos (de 74% para 61%) e o rendimento em massa de frutos. A tela branca não reduziu o rendimento |
| Manejo de copa (poda, raleio, condução) | Mantém folhas sombreando os frutos | Mão de obra; a poda de verão expõe frutos de repente e pode aumentar o dano |
| Resfriamento evaporativo (aspersão sobre a copa) | Reduz a temperatura da superfície e favorece a cor | Infraestrutura cara, manutenção diária, água de qualidade; não protege contra UV |
| Caulim e filmes de partículas | Refletem parte da radiação e reduzem a temperatura do fruto | Resíduo branco exige escovagem ou lavagem no packing; baixa aderência de alguns produtos exige reaplicações |
Fontes: Amarante et al., 2007; WSU Tree Fruit; Willsea et al., 2023.
Cada estratégia resolve parte do problema e tem seu custo, e na prática elas costumam ser combinadas. É aí que entram novas tecnologias de proteção: somar camadas de defesa ao fruto sem exigir infraestrutura nova no pomar.
O que os testes com Revella® WL-04 mostraram
O Revella® WL-04 é um protetor solar agrícola de base nanotecnológica, aplicado em pulverização. Nos ensaios com maçã, a dose avaliada, de 0,5 L/ha, teve efeito sobre as duas variáveis ligadas ao prejuízo: a alteração da cor da casca e a perda de massa fresca do fruto.
| Cultura | Dose | Condição do ensaio | Resultado vs. testemunha |
|---|---|---|---|
| Maçã verde | 0,5 L/ha | 5 ciclos de estresse luminoso | -33% na alteração da cor da casca |
| Maçã Gala | 0,5 L/ha | 3 ciclos de estresse térmico | -58% na perda de massa fresca |
| Pimentão verde | 0,5 L/ha | 3 ciclos de estresse térmico | -10% na perda de massa fresca |
| Feijão | 0,1 e 0,5 L/ha | Ensaio com avaliação de produtividade | Temperatura foliar 2,7 °C (0,1 L/ha) e 2,6 °C (0,5 L/ha) menor; com 0,5 L/ha, +9% de produtividade e +19% de grãos por planta |
| Melancia | 0,1 a 0,6 L/ha | Comparativo entre doses | Maior redução da temperatura dos frutos na dose de 0,6 L/ha |
Três leituras importam para quem monta portfólio para pomicultura:
- A perda de peso teve a maior resposta. Na Gala, a perda de massa fresca foi 58% menor que a da testemunha. Isso não significa 58% a mais de peso: significa menos água perdida sob estresse, variável ligada ao preço do quilo comercializado.
- A cor foi preservada. Na maçã verde, a alteração de cor sob estresse luminoso foi 33% menor que a da testemunha. O resultado não se aplica automaticamente à formação da cor vermelha em cultivares como a Gala.
- Outras culturas responderam na mesma direção. No feijão, com 0,5 L/ha, a temperatura foliar 2,6 °C menor veio acompanhada de 9% a mais de produtividade, e na melancia o produto reduziu a temperatura do próprio fruto.
Para empresas que desenvolvem soluções destinadas à fruticultura, a resposta das culturas a condições de estresse representa uma área importante de pesquisa e desenvolvimento.
Os resultados com Revella® WL-04 oferecem informações técnicas que podem orientar novas avaliações e estudos de aplicação, especialmente para formuladoras interessadas em desenvolver produtos com diferenciação tecnológica.
A nanotecnologia amplia as possibilidades de desenvolvimento de formulações agrícolas, mas seu valor depende da relação entre as características da tecnologia, as necessidades de cada aplicação e os resultados efetivamente demonstrados.
A definição de estratégias de utilização, compatibilidade com outros insumos e protocolos de aplicação deve considerar as particularidades de cada sistema produtivo e os dados técnicos disponíveis.
Por ser aplicado via pulverização, o WL-04 não exige infraestrutura nova no pomar. Para entender o número de aplicações, momento de entrada e compatibilidade com o manejo de cada pomar entre em contato com o time técnico da Revella®.
Perguntas frequentes
O que causa o estresse térmico em maçã?
O estresse térmico está associado à exposição a temperaturas que afetam a atividade fisiológica da planta. Sua intensidade depende de fatores como duração do calor, radiação solar, disponibilidade de água, umidade do ar e características da cultivar.
Estresse térmico e queimadura solar são a mesma coisa?
Não. O estresse térmico envolve alterações fisiológicas associadas às altas temperaturas. A queimadura solar é um dano localizado, geralmente observado nos frutos, relacionado à radiação excessiva e, dependendo do tipo de lesão, às altas temperaturas.
Como o calor excessivo afeta a fotossíntese da macieira?
Em condições de estresse intenso, temperaturas elevadas podem alterar as trocas gasosas, o funcionamento do fotossistema II e os processos envolvidos na fixação de carbono. A resposta depende das condições ambientais e da capacidade de aclimatação da planta.
Quais estratégias podem contribuir para o manejo do estresse térmico?
Entre as alternativas estão o manejo adequado da irrigação e da copa, o uso de telas, sistemas de resfriamento e tecnologias de aplicação foliar. A escolha depende das condições do pomar e das evidências disponíveis para cada estratégia.
Protetor solar agrícola interfere na cor da maçã?
Depende da tecnologia. Produtos que bloqueiam a luz podem prejudicar a coloração. Nos testes com Revella® WL-04 a 0,5 L/ha, a alteração da cor da casca da maçã verde foi 33% menor que na testemunha.
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Referencias
- AMARANTE, C. V. T. et al. Radiação, fotossíntese, rendimento e qualidade de frutos em macieiras ‘Royal Gala’ cobertas com telas antigranizo. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 42, n. 7, p. 925-931, 2007.
- CNN AGRO. Produtores de maçã alugam colmeias para garantir polinização da nova safra. 18 outubro 2026.
- BOLIVAR-MEDINA, J. L.; KALCSITS, L. Sunburn in apple and strategies to mitigate it. WSU Tree Fruit, 2021 (rev. 2022).
- WILLSEA, N. et al. Reviewing the tradeoffs between sunburn mitigation and red color development in apple under a changing climate. Horticulturae, v. 9, n. 4, 492, 2023.
- REVELLA. Tabela de Resultados e Doses — Revella® WL-04. Documento técnico interno.
- MORALES-QUINTANA, L. et al. Sun injury on apple fruit: physiological, biochemical and molecular advances, and future challenges. Scientia Horticulturae, 2020.



