Crise no abastecimento de fertilizantes no Brasil: com Ormuz travado, cada grama de insumo impacta na estratégia de portfólio

Resumo

  • O plano da ONU para liberar fertilizantes no estreito de Ormuz segue parado. Desde meados de outubro, nenhum navio com ureia de origem não iraniana cruzou a passagem, segundo a Argus e a Kpler.
  • A ureia voltou a US$ 476–488 por tonelada CFR Brasil no fim de outubro, segundo a Nobel Trading.
  • O Brasil importou 92% dos fertilizantes que usou em 2025, e a Argus prevê impacto maior na safra 2027/28.
  • Com o insumo caro e escasso, eficiência de entrega (menos perda e menos dose) virou proteção de margem para a indústria.



No dia 14 de outubro, a ONU fez um alerta que passou quase despercebido fora do circuito do agro. O mecanismo criado em março para liberar a passagem de fertilizantes pelo estreito de Ormuz continua no papel. Segundo Jorge Moreira da Silva, subsecretário-geral da ONU, ele poderia ser ativado em sete a dez dias. Bastaria Estados Unidos e Irã concordarem, o que não ocorreu.

Para quem formula, distribui e vende insumos no Brasil, o recado vai além do preço de uma safra. A crise de fertilizantes no Brasil virou um problema de previsibilidade. E é justamente este fator que regula margem e portfólio.

Por que o estreito de Ormuz afeta os fertilizantes?

Antes da guerra, cerca de um terço da ureia comercializada no mundo e quase metade do enxofre transportado por mar passavam por Ormuz, segundo a Reuters. O estreito é a saída dos grandes exportadores de nitrogenados do Golfo. Quando ele trava, o mundo inteiro sente.

A linha do tempo de 2026 mostra por que o mercado deixou de acreditar em normalização rápida:

  • Março: o conflito entre EUA e Irã restringe o tráfego no estreito.
  • Abril: a ureia chega ao pico, perto de US$ 780 por tonelada.
  • Junho: um cessar-fogo de 60 dias reabre a passagem, e a ureia cai para US$ 350 por tonelada em Nova Orleans.
  • Depois de junho: o cessar-fogo provisório entra em colapso, e o tráfego volta a ser restrito.
  • Outubro: a ONU alerta que o plano de passagem segue parado. Segundo levantamento da Argus com dados da Kpler, desde meados do mês nenhum navio com ureia de origem não iraniana cruzou o estreito, e havia cerca de 919 mil toneladas de fertilizantes retidas em 21 navios no Golfo.

A FAO já havia avisado, em maio, que a falta de fertilizantes poderia apertar a oferta de alimentos do fim de 2026 até 2027. O efeito não fica no porto. Chega à lavoura e, depois, ao prato.

Quanto está o preço da ureia?

No fim de outubro, a ureia granulada era negociada entre US$ 476 e US$ 488 por tonelada , segundo a Nobel Trading. Em meados do mês, o Itaú BBA apontava US$ 470, alta de 3% desde o início de setembro.

O preço da ureia continua respondendo à oferta e à demanda, mas passou a incorporar um componente adicional de incerteza: o risco geopolítico. Restrições logísticas, custos de energia e negociações diplomáticas passaram a influenciar diretamente a disponibilidade e a formação de preços.

Quanto o Brasil depende de fertilizantes importados?

O Brasil comprou no exterior 92% dos fertilizantes usados na agricultura em 2025. Em 2026, comprou menos e pagou mais. Dados da Secex compilados pela Farmnews mostram:

Indicador (janeiro a agosto)20252026
Importação total de fertilizantes29,46 milhões de t25,37 milhões de t
Importação de ureia—2,82 milhões de t, o menor volume da série iniciada em 2018
Preço médio de importaçãoUS$ 340,21/tUS$ 394,47/t, o maior para o período desde 2022

Menos volume e preço maior apertam o caixa de toda a cadeia: de quem importa a matéria-prima a quem vende o produto formulado.

Por que a safra 2027/28 preocupa mais que a atual?

Segundo avaliação da Argus, a safra 2027/28 poderá sentir efeitos mais intensos da crise caso a menor aplicação de fertilizantes em 2026/27 reduza as reservas disponíveis de nutrientes no solo. A intensidade desse impacto dependerá do manejo, da fertilidade inicial e da reposição nutricional realizada em cada área.

Até o fim de junho, menos de 45% do fertilizante necessário para a safra seguinte havia sido comprado, segundo a CNA. E a produção nacional, de cerca de 7,2 milhões de toneladas em 2025, está longe de cobrir a demanda. Os novos projetos levam anos para entrar em operação.

Por que eficiência de entrega virou proteção de margem?

Quando o insumo fica escasso, desperdício vira custo. E o desperdício de fertilizante no campo é grande. A ureia aplicada em superfície, no plantio direto, pode perder até 78% do nitrogênio por volatilização de amônia, segundo estudo de Cabezas citado por Civardi et al. (2011). Lixiviação e desnitrificação completam a conta.

Com a tonelada mais cara, cada quilo perdido pesa duas vezes: paga-se mais para perder o mesmo. É por isso que tecnologias de entrega, antes vendidas como diferencial de sustentabilidade, passam a ser argumento financeiro. Inibidores de urease, fontes de liberação controlada e nutrientes em nanoescala disputam o mesmo espaço: entregar mais nutriente útil por quilo aplicado.

Para o decisor da indústria, a pergunta mudou. Antes era “quanto custa o meu insumo”. Agora é “quanto do meu insumo é de fato absorvido pela planta”.

O mesmo raciocínio vale para outros insumos sob pressão de preço, como mostra o artigo A alta dos preços na China e a nanotecnologia neste cenário.

Como a eficiência de formulação pode contribuir para a competitividade do portfólio?

A crise internacional dos fertilizantes reforça uma discussão que vai além do abastecimento de macronutrientes: como tornar as formulações agrícolas mais eficientes e economicamente competitivas?

Embora os nanonutrientes não substituam fontes convencionais de nitrogênio, fósforo ou potássio, tecnologias como Revella® Fortizinc e Revella® W-Se podem oferecer oportunidades de diferenciação em outras frentes do portfólio, por meio de formulações com doses específicas e desempenho agronômico a ser demonstrado.

Para as formuladoras, a competitividade deve ser avaliada pelo custo por hectare e pelo desempenho comprovado, considerando também o teor de ativo, a estabilidade, a logística e a disponibilidade das matérias-primas.

O Revella® Fortizinc (nanopartículas de zinco em base aquosa) e o Revella® W-Se (nanopartículas de selênio em base aquosa) foram desenvolvidos para entregar o nutriente com doses muito menores que as fontes convencionais. Os nanonutrientes exigem até 60 vezes menor dose que os ingredientes ativos na forma livre. Menor dose significa menos matéria-prima, menor volume transportado e menos exposição à volatilidade do mercado.

A literatura científica ajuda a calibrar a expectativa. Uma revisão de 78 estudos publicada na Nature Nanotechnology encontrou ganho mediano de 20% a 30% de eficácia das nanoformulações sobre as versões convencionais, com a ressalva de que faltam mais estudos de campo (Kah et al., 2018). É ganho real validado em ensaio.

O que revisar no portfólio antes da próxima compra

  • Dose por hectare: quais produtos dependem de volumes altos de matéria-prima?
  • Eficiência comprovada: há ensaios mostrando quanto desses nutrientes realmente são utilizados de maneira eficiente pela planta, e não só quanto é aplicado?
  • Fornecedores: a matéria-prima crítica vem de uma rota exposta ao estreito de Ormuz?
  • Logística: quanto do custo final é frete de volume que poderia ser reduzido?
  • Narrativa comercial: o time de vendas sabe linkar a eficiência do produto como proteção de margem do produtor, e não só como sustentabilidade?

A crise de fertilizantes no Brasil não tem data para acabar. Quem chegar à safra 2027/28 com um portfólio mais eficiente por grama vai negociar em outra posição.

Perguntas frequentes

Por que o estreito de Ormuz é importante para os fertilizantes?

Porque, antes da guerra, cerca de um terço da ureia comercializada no mundo e quase metade do enxofre transportado por mar passavam por ali, segundo a Reuters. É uma grande rota de escoamento dos grandes exportadores de nitrogenados do mundo.

Quanto do fertilizante usado no Brasil é importado?

Em 2025, 92% dos fertilizantes usados na agricultura brasileira foram comprados no exterior. De janeiro a agosto de 2026, as importações caíram para 25,37 milhões de toneladas, contra 29,46 milhões no mesmo período de 2025, cerca de 14% de queda anual.

A crise de fertilizantes no Brasil vai piorar?

Para a Argus, o impacto será maior na safra 2027/28 do que em 2026, porque a safra 2026/27 deve consumir as reservas de nutrientes do solo, deixando uma conta muito maior a ser paga no ano que vem.

Nanonutrientes substituem a ureia?

Não. Nanonutrientes como zinco e selênio em nanoescala fornecem micronutrientes com doses muito menores que as fontes convencionais. Eles não substituem o nitrogênio.

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Referências

  1. AL JAZEERA/REUTERS. UN official warns of looming food crisis as Hormuz fertiliser plan stalls. 14 out. 2026.
  2. DISCOVERY ALERT (com dados de Argus e Kpler). Urea shipments stall at Hormuz as Gulf backlog nears 1M tonnes. Out. 2026.
  3. FERTILIZER DAILY. NOLA urea prices drop 55% from April peak as Hormuz ceasefire and renewed Chinese exports reshape the market. 24 jun. 2026.
  4. PORTAL DO AGRONEGÓCIO. Fertilizantes: ureia sobe a até US$ 488 por tonelada. 26 out. 2026.
  5. REVISTA CULTIVAR. Ureia avança e safras enfrentam mudanças na oferta e nos preços. 14 out. 2026.
  6. FARMNEWS. Importação de fertilizantes segue caindo na parcial de setembro de 2026. 25 set. 2026.
  7. EIXOS. Impacto do conflito no Oriente Médio na importação de fertilizantes será maior na safra 2027/2028. 27 jul. 2026.
  8. CIVARDI, E. A. et al. Ureia de liberação lenta aplicada superficialmente e ureia comum incorporada ao solo no rendimento do milho. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 41, n. 1, p. 52-59, 2011.
  9. KAH, M. et al. A critical evaluation of nanopesticides and nanofertilizers against their conventional analogues. Nature Nanotechnology, v. 13, p. 677-684, 2018.
  10. REVELLA. Nanonutrientes Revella.

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